Entrevista com José Cechin

09.03.2016

O Blog do Som bateu um papo com José Cechin da Coyote Cigar Box Guitar, o artesão e cientista maluco por trás dessas curiosas e potentes guitarras ancestrais do blues e do rock, agora com sotaque paranaense! Make the noise with these smoking guns, crazy people! 

 

BS –  O que é uma Cigar Box, onde surgiu este instrumento e quando? (Está relacionado ao blues?)

 

 JC -  Cigar Box é como se fala caixa de charutos na língua Inglesa. Existem registros de instrumentos musicais feitos com caixas de charutos e outros tipos de caixas, que datam do Sec. XVIII. Eu acredito que essa fórmula de se construir um instrumento com materiais simples ou com o que se tem a mão, deve ser bem mais antiga. Por tudo o que eu li acredito que não existe uma ligação direta e única com o Blues, mas alguns historiadores narram o fato de os primeiros cantos dos escravos (Work songs) serem acompanhados em certos momentos por instrumentos rústicos improvisados por aquele povo. Existe o Didley Bow, uma espécie de  "Berimbau Slide “, mas  só existem registros verdadeiros  dele datando de 1930, esse instrumento com certeza deriva de instrumentos africanos.  Seria mais exato dizer que esses instrumentos improvisados acompanharam todo tipo de  música popular (Folklore) durante muito tempo até a popularização dos instrumentos  musicais de qualidade, de maior sofisticação.  

 

BSComo surgiu o seu interesse em fazer este instrumento? Você aprendeu sozinho? Qual a sua relação com música?  

     

  JC - Pessoalmente tive algumas decepções profissionais em minha vida e comecei a fazer artesanato em madeira, Marchetaria, entalhe, lambrequins, etc...  Como estava lidando com coisas de madeira e também tocava musica a algum tempo, um antigo amigo mostrou um vídeo de um cara dos Estados Unidos tocando uma Cigar Box Guitar e me perguntou se eu conseguia fazer algo parecido, fiquei maluco. Enquanto não consegui concluir eu não parei, encontrei muitas dificuldades, a primeira ficou parecendo uma caixa com uma vara de pescar, mas hoje o resultado está interessante. O problema de fazer um instrumento musical é que a estética (ou anti-estética que seja) (risos),  tem que se render a funcionalidade, senão, só criatividade não adianta absolutamente nada.  Estou nessa graças a esse amigo, o guitarrista Boris Kovalks.  

   Minha relação com a musica é bastante forte,  ganhei o primeiro violão de um amigo, aprendi a tocar com amigos também, mas quando tinha 16 anos fiz aula de violão clássico um mês, e por incrível que pareça só esse um mês de violão erudito foi um divisor de águas...    Tive uma vida com o Rock, fiz uma parceria legal com um amigo, fizemos músicas interessantes. Gosto de escrever, e ele tinha uma grande musicalidade e poder de estruturação, foi uma coisa legal que aconteceu.  Hoje continuo escrevendo, mas só para xaropear os outros nas redes sociais! (risos)  Mas falando sério,  fico muito feliz com os modestos resultados que colhi e continuo colhendo com a música.

    Gosto de todos os tipos de música,  mas me chama atenção aqueles compositores que conseguem dizer coisas profundas com temas simples, sem muita complicação. Os caras do Blues eram bons nisso.  Também aprecio  temas  instrumentais  e com uma certa economia de notas, isso me atrai muito, dizer muito com pouco, ou não dizer nada, só celebrar a vida. Admiro muito isso,  as vezes não consigo, pois também sou muito prolixo, mas aprecio e tenho a simplicidade como objetivo, isso deve ser uma influência do Zen em minha vida.

      

BS É possível fazer qualquer tipo de instrumento com as caixas de charuto? Existe alguma limitação? Estes que você já fez de quatro cordas, qual é a afinação? Serve só para tocar com slide?

 

 JC - Bem, pelo que entendi na minha prática de bolar esses instrumentos, com caixas de charuto ou com outras similares digo que é Possível fazer várias coisas, dá pra fazer Baixo, guitarra, Ukulele, Caixas de percussão (Stomp Box) , com latas também dá certo, elas ficam com som daquelas guitarras com ressonador, parecido, não igual. 

   Bem, todo instrumento tem prós e contras, por exemplo, é mais fácil fazer certas coisas em um piano do que em uma guitarra, o inverso também...  A Cigar Box Guitar tem suas peculiaridades, foram coisas que eu descobri na raça, na experimentação.   Muitos tocadores de C. Box por exemplo usam a Cigar Box guitarra com as cordas bem altas e a escala sem trastes, o que dá uma super liberdade para tacar de forma selvagem e decidida o Slide nas cordas, mas nesse caso, não dá pra tocar do jeito convencional...  com acordes e tal, tem que usar uma afinação aberta e por aí vai.   Nas que eu faço, eu procuro chegar a um meio termo na regulagem,  para a pessoa poder tocar com slide e sem ele também. Na guitarra , junto com a corda, o traste é que faz o som das notas, o slide é um traste que “ anda”  conforme a vontade do tocador, só que do outro lado das cordas. Em uma regulagem com as cordas mais perto dos trastes, ou “ colada”  como alguns preferem, vai exigir uma sensibilidade e técnica muito mais apurada por parte do musico.   Deixar uma guitarra regulada em um meio termo para esses dois jeitos de tocar foi uma coisa que tive que suar a camisa, pois realmente eu não entendia nada. 

   O bom da Cigar Box é poder dar liberdade para o Slide,  porque tendo 3 ou quatro cordas existe mais espaço entre as cordas no braço, sempre de 1 cm para mais, entre uma corda e outra, isso do Nut até a ponte, o que também dá uma liberdade para diversos movimentos do slide, proporcionando um fraseado bem limpo!!! ( Contrariando todas as expectativas dado o aspecto da geringonça).   Pelo fato dela poder ser tocada como uma guitarra convencional, me parece mais versátil na questão rítmica do que guitarra havaiana. 

  Podem ser feitas guitarras de 1 corda, 2, 3, 4, 5 e convencional de 6.

  Nas de quatro cordas a afinação geralmente é a de Sol aberto:  G, D, G, B. Pode ser também a afinação de D aberto :  D, G, B, D. Mas o pessoal usa um monte de afinações que eu nem sei dizer.

 

BSVocê fez um violão quadrado, qual é a idéia? 

  JC - Caramba, isso foi legal.  Estava vendo um dia um vídeo de um rapaz tocando uma espécie de ukulele de lata, lá na áfrica, era um instrumento horrível, mas o feeling do musico compensava qualquer coisa.  O braço estava enfiado torto na lata, angulado pra cima, dai pensei em fazer um violão usando essa lógica, foi muito legal, a tocabilidade melhora uns 90%, pois ele normalmente pousado sob o colo (sem estar na posição erudita) quase fica na postura do clássico, só um pouco mais baixo, e descansa bem o pulso, enfim, sensacional.  Quando já tinha feito ele, em minhas incansáveis pesquisas vi que um luthier da Korea tinha tido a mesma idéia, e provavelmente antes de mim.  Mas tranqüilo, acho que eu fui o primeiro a fazer essa experimentação em todas as Américas, posso estar enganado, mas acho que sim.  Não tive muito incentivo para desenvolve-lo mais e melhor, nenhum mecenas da luthieria apareceu, snif... Mas acho que em termos de ergonomia ele dá um banho no violão tradicional, só é preciso  melhorar a sonoridade.

 

BSComo podemos definir a diferença do timbre deste tipo de instrumento para o instrumento tradicional? Tem um pessoal aficionado por este instrumento? (É meio que uma cultura underground X mainstream das Fender e Gibson, etc?)

 

 JC - Percebo na Cigar Box Guitar um timbre diferente, ainda não sei  exatamente a que se deve , acredito que o braço integral (mesma peça de madeira desde o Headstock até o cordal)  deve vibrar diferente, porque a captação é a mesma de sempre...  As vezes ela parece um trovão, as vezes uma viola, é uma coisa que possui uma mágica própria.

    Nos EUA e Europa está tendo uma movimentação  desde a virada do século, tem uns caras muito bons, construtores e tocadores, enquanto musico, admiro muito o Justin Jonhson, na parte de construção gosto muito do trabalho do Luthier Daddy Mojo do Canadá, aquilo realmente é arte de altíssimo nível.  Mas tem gente com propostas mais simples e ótimas  idéias também.

   Pelo que percebo existe sim algo underground, anti-mainstream, uma coisa meio revolucionária da parte de alguns integrantes do movimento. Mas acho que cada um no seu quadrado,  ter uma cigar Box é a segunda ou terceira opção de quem já tem sua guitarra de marca consagrada.  Eu gosto muito dessas guitarras porque eu acho elas muito bonitas, gosto do som e da tocabilidade, mas não tenho nenhuma pretensão revolucionária, participo e faço arte pela arte, só isso, absolutamente nada mais.  Por outro lado acho legal porque que é uma chance de luthiers desconhecidos terem reconhecimento pelo seu trabalho, realmente estamos a décadas com as mesmas opções de modelos de guitarra, enquanto fabricantes extremamente talentosos não são devidamente reconhecidos.  Muitos artistas do mainstream tem se mostrado corajosos em tocar com instrumentos não consagrados, mandando os patrocinadores   para as cucuias, isso é algo muito corajoso, mas é preciso muito autonomia pra chutar o balde nesse nível. Só quem já teve coleção de “ Guitar Player”  sabe o tamanho do mercado que existe em cima dessas coisas. Mas acho que tem espaço para todos, só alegria.

  

BSComo é a escolha do material?

 

 JC - Bem, não trabalho com guitarras em série, atendo cada pessoa mais ou menos no que ele quer, a gente sempre chega em um meio termo entre o que ele imagina e o que pode ser feito...  Gosto de fazer guitarras de latas e caixas, outras coisas já fico meio assim, tem gente que faz guitarras com pás, vídeo games, muletas, dai já acho muita pira, sou meio fiel as caixas por enquanto, faço uma Cigar Box Guitar mais ortodoxa (risos).  Mas realmente o músico interessado, o cliente, escolhe o que ele acha melhor e mais bonito, ele pode trazer a caixa, ou usar as que eu tenho aqui também, eu posso comprar os materiais, ou o cliente pode comprar tudo conforme o gosto, o que precisa,  é me trazer aqui, dai eu só cobro a mão de obra.

 

BS Quanto tempo em média você leva para terminar uma Cigar box?

  

JC - Eu demoro uma semana, entre uma semana e dez dias, é um processo muito longo, eu faço quase tudo na mão então é assim. De todo esse tempo, acho que uns dois dias eu fico só lixando... isso que ainda é um instrumento rústico, imagina se não fosse...

  Daí, tem a questão de esperar algumas pecas chegarem pelo correio, o que demora uns dias às vezes, tudo isso atrasa a entrega, para outro estado pode chegar a trinta dias até estar lá na mão da pessoa que encomendou. 

 

BS - Como as pessoas podem entrar em contato com você para encomendar uma Cigar Box?

 

 JC - Bem , tenho minha página no Facebook, devo muito a ela!!!   Que é :   Coyote Cigar Box Guitar & ukulele. Instrumentos artesanais.  Tem o meu perfil pessoal também : José Cechin. E também pode me encontrar no Telefone: (41) 98 73 99 35.

 

BSPra encerrar quais são os teus próximos projetos?

 

 JC -  Bem, meu projeto pessoal é melhorar, aperfeiçoar as guitarras, dentro da proposta delas é claro. Fazer mais baixos. Espero conseguir parcerias para desenvolver o violão quadrado. E é por ai a coisa.  Meu projeto maior seria realmente conseguir viver disso. 

 

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Coyote Cigar Box na Gazeta do Povo

 

Coyote Cigar Box na É-Paraná

 

 

 

 

 

 

 

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