Entrevista com Marilia Giller

08.02.2016

Jazz... Seja ele jazz fusion, jazz rock, jazz tradicional, ou do início do século XX. A nossa entrevistada toca, pesquisa e explica o jazz, a música em família, a arte, a memória da arte e muito mais. Faça como o Blog do Som e seja soterrado pela avalanche sonora da pianista Marilia Giller!

 

 

BS – Fale um pouco sobre você e os teus principais trabalhos.

 

MG - Trabalho com a música há 35 anos, principalmente em Curitiba, mas com períodos na Europa e em outras cidades do Brasil e países do Cone sul da América. Este envolvimento gira em torno da música instrumental e basicamente do Jazz fusion. A maioria dos trabalhos tiveram a formação básica como quinteto: teclados, sax, baixo, guitarra e bateria, mas muitas vezes também  em duo, trio e até formação Big Band em algumas ocasiões.

Sotak surgiu em 1983 e a concepção era baseada também no jazz rock, no repertório além de músicas próprias tocávamos a maioria das músicas do repertório do jazz em geral. O Sotak foi muito dinâmico e mutável, muitos músicos da cidade de Curitiba iniciaram com nossa banda.

Em 1990 mudamos para Montreux na Suíça e durante cinco anos participamos de vários festivais de jazz, tocamos em inúmeras cidades e teatros e gravamos nosso primeiro CD MANHA em Genebra (1993), só com composições do grupo. Quando voltamos para o Brasil, gravamos mais dois CDs até eu me afastar do grupo em 2002. Dai pra frente formei o TRIPISCIS, com Mario Conde e Endrigo Bettega, até chegar ao JAZZMAIA, que divido com meus Filhos Ian e Allan. Trabalhar com os filhos é um desafio que motiva varias facetas da relação, a intimidade estética é uma delas, a facilidade em expressar a sua composição, feita na sala de casa, enquanto os filhos absorviam pela escuta, distante em seus quartos. È um tipo de ensaio a distância, porém muito perto, talvez seja um tanto “umbilical”.

 

BS – Você chegou a fazer o estudo “formal” de piano ou sempre se interessou mais pela música popular? Fale um pouco das tuas principais influências e da diferença entre jazz fusion e jazz “friction”.

 

MG - A música é um legado de minha família, e o interesse pelo piano foi proporcionado por meus pais que desde criança me deram a oportunidade de me aproximar deste instrumento. Depois de passar pelo repertório tradicional da escola pianística me interessei pelo Rock que comecei a ouvir na adolescência, Led Zeppelin, Deep Purple, Yes, Pink Floyd, Jethro Tull e todos aqueles sons dos anos 1970. Com o tempo, conheci a obra de Passport, Larry Coreal, Philipe Catherine, Pat Metheny, Frank Zappa, Allan Holdsworth, Ian Garbareck, Jean Luc Ponty, Chick Corea, Herbie Hancock, Miles Davis, Mahavishnu Orchestra, com isto me aproximei do Jazz com mais evidência e passei a ouvir John Coltrane, Charlie Parcker, Wayne Shorter. Porém entre todos os sons o grupo que escuto é Weather Report, como também o trabalho de Joe Zawinul, Tribal Teck, Scott Henderson, Allan holdsworth. Sempre preferi ouvir mais os trabalhos instrumentais

            No jazz fusion, uma concepção sonora da década de 1970, subentende-se uma fusão entre estilos ou sonoridades. Filosoficamente, entendi minha música como Jazz Friction, a partir das teorias do musicólogo Acácio Piedade, que indica a ocorrência de uma fricção de musicalidades entre o jazz norte-americano e a música instrumental brasileira, observando que no limite destes encontros sonoros existe um atrito, deixando de ocorrer uma possível fusão ou hibridismo. Esteticamente entendi que uma avalanche pode ocorrer a partir de um atrito, causada por uma suposta fricção entre dois objetos. (Marilia Giller no Curitiba Jazz Meeting 2011)

 

BS – O cd Avalanche. Quando surgiu a idéia de fazer este cd? Como foi o processo de composição e de arranjos? Que impacto teve a perda precoce do músico Emerson Antoniacomi no projeto? Quem participou do cd, onde ele foi gravado e como rolou a participação do Scott Henderson?

 

 MG - O projeto Avalanche foi organizado para marcar meus trinta anos de carreira. As composições foram elaboradas durante este tempo, e neste Cd apresento algumas delas, principalmente as que foram compostas após a fase do grupo Sotak que deixei em 2002.

O guitarrista Emerson Antoniacomi foi meu consultor de timbre e estéticas, também dividimos a composição ‘Instantaneous Minds’, mas a sua partida precoce me forçou a incluir outros guitarristas neste projeto assim trabalhei com o guitarrista Mário Conde no choro ‘Ritual’ e no samba ‘Mandinga’ e com o percussionista Marco Lobo. Outros guitarristas me acompanharam como Ruan de Castro em ‘Superagui", Sergio Sofiatti em "Eu Kiss" e Luiz Gustavo Martins Arthury em "Nascente".

 A participação do Scott Henderson estava marcada no projeto desde que ele ouviu algumas composições se mostrou interessado em gravar ‘Horizonte Interno’, ‘Teoria da Situação’ e ‘Avalanche ’ O resultado foi incrível e inspirador e já pensamos em gravar um outro trabalho juntos. Temos muitas coisas em comum na maneira em pensar a música e sempre que podemos nos encontramos para tramar futuros. Além de ser um super guitarrista é uma pessoa muito acessível e divertida.

Além destes profissionais, tive a oportunidade de ter o aval, na música ‘Tempo’ do Maestro Nelson Aires, que eu tenho grande apreço. A captação e masterização foi realizada no estúdio RecRoll espaço conduzido pelo experiente Vitor França.

A presença do Ian e Allan foi essencial neste projeto, provavelmente eu não teria obtido o resultado final do Cd. A bateria foi toda desenhada pelo Ian, que retém uma experiência entre as várias bandas que toca. As linhas do baixo foram norteadas pela astucia do Allan. Os dois circulam em bandas de Rock, Reggae, Black Music e Jazz. Ambos assinam a composição ‘Superagui’.

Este Cd me proporcionou na enquete realizada pelo historiador e jornalista de jazz Arnaldo De Souteiro, fui indicada em Oitavo lugar como tecladista na 35ª EDIÇÃO DOS MELHORES DO JAZZ em 2013.

 

BS - Tem gente que acredita que num futuro próximo, as pessoas só ouvirão música via sites de “streaming”, ainda vale a pena apostar no cd “físico”? Você curte tecnologia ou prefere trabalhar com sons mais “vintage”? 

 

MG - Eu vejo isto como realidade neste momento, o Cd físico esta em fase de extinção e tende a terminar com as ultimas gerações que nasceram no final do século XX e que foram acostumadas com este tipo de consumo. O mercado está escasso e a pirataria em voga.

Eu ainda ouço o Vinil e me divirto em Sebos buscando discos que faltam em minhas coleções. Mas também não abro mão da tecnologia, principalmente com meu equipamento. Utilizo além de um bom e velho piano acústico, recursos mais avançados como piano elétrico (Yamaha), sintetizadores (Korg e Roland) e ainda sons controlados via Midi para interseções sonoras e efeitos atmosféricos.

 

BS - Artes plásticas. Você também pinta, como isso influencia no teu processo criativo? Onde as pessoas podem encontrar estes trabalhos?

 

MG - Minha família sempre foi envolvida com arte, cresci vendo minha mãe pintar, meu pai fazendo trabalhos artesanais para nossa casa, tinta, pincel, telas, materiais diversos e música. Assim desenvolvi meu universo onírico e artístico naturalmente, Minha primeira graduação foi Bacharelado em Pintura (Embap 1984).  Mas ao mesmo tempo eu não saia de cima do Piano e desta forma, as duas linguagens artísticas partem de um mesmo processo criativo, pinto minhas músicas e sonorizo minhas pinturas. A maioria das composições são quadros que utilizei projetando nos meus shows. Fiz algumas exposições, mas não é meu foco principal como artista, a pintura é um veículo para a música, talvez uma maneira de materializar meu som. 

 

BS – E quanto a Fap. Quais são os desafios e as recompensas de trabalhar com música no ensino superior?

 

MG - Há seis anos sou professora no curso Bacharelado em Música Popular, lá buscamos levar o estudante a compreender os vários perfis da música popular e desenvolver projetos e pesquisas que discutam a música em várias áreas, como a etnomusicologia, análise, história, memória, semiótica. Os desafios são constantes entre os alunos, a sociedade e também os órgãos de apoio a pesquisa que dependem de recursos estaduais e federais,

O ensino da música popular ainda está em construção no Brasil, e as discussões são enormes sobre o assunto, mas este é o caminho, o importante é manter a mente inquieta e crítica sobre a realidade de ser músico e os campos de atuação nos dias de hoje. Uma tarefa muitas vezes complicada nestes dias de "incertitude" política, onde muitas ações são comprometidas com a situação instalada em vários setores que deveriam dar apoio para o ensino da arte.

 

BS – Fale um pouco sobre o teu trabalho de pesquisa sobre compositores paranaenses. Como surgiu este interesse? Quem foram os principais personagens da história do “jazz paranaense”, de acordo com as tuas pesquisas? 

 

  MG - Desde 2002 sou pesquisadora em música em Curitiba junto a Faculdade de Artes do Paraná e lá eu lidero uma linha de pesquisa sobre a música do Paraná, com ênfase no Jazz. Iniciei recolhendo dados sobre as década de 1950 a 1960. No mestrado que finalizei em 2013 pesquisei os grupos da década de 1920 e 1930, e este interesse partiu de algumas fotos de bandas com a formação jazz band e também algumas partituras inéditas, inclusive da banda Tupynambá Jazz Band, que meu avô Estefano Giller tocava. O projeto inclui levantamento de dados, catalogação de partituras, documentos e fotos, e contribui sobremaneira para a memória cultural da cidade e inserção da musica Paranaense num contexto mais amplo. Divido toda a pesquisa com Tiago Portella Otto e alguns alunos que orientamos, produzindo textos, exposições, concertos e palestras. (Veja Marilia Giller falando sobre o Jazz em Curitiba, sobre a Música Paranaense do Início do Séc XX e sobre o arquivo de Eugênio do Rosário).

 

BS – Sobre a parceria como o pesquisador Tiago Portela.  O que é o Nemup? que este projeto já produziu e o que está nos planos? 

 

MG - Todos estes anos de pesquisa conseguimos concentrar acervos e arquivos de compositores da primeira metade do século XX, que atuaram em Curitiba, Assim eu e o Tiago organizamos o NEMUP que é o Núcleo de Estudos da Música do Paraná, o Nucleo esta aberto para receber acervos de famílias, principalmente aqueles que já estão em processo de deterioração e amarelados com o tempo, estes são levados a processos de recuperação e estudos. Desenvolvemos vários projetos com estudantes de música e futuros pesquisadores.

 

BS – E pra finalizar, quais são os teus próximos projetos?

 

MG - Entre os projetos futuros, pretendo continuar com shows em Festivais de Jazz pelo Brasil e América Latina, e alguns países da Europa (Polônia, Suíça, Dinamarca) e também finalizar o Doutorado em música e lançar o livro sobre o Jazz no Paraná.

 

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Soundcloud

 

"Mandinga" - Marilia Giller

 

 

"July in Ritiba" - Marilia Giller

 

Documentário "O Sabiá"

 

 

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