Entrevista com João Marcelo Gomes

07.02.2016

23/03/2015

 "A música expressa o que não pode ser dito em palavras mas não pode permanecer em silêncio." Victor Hugo

 

Música e cinema. Som e vídeo. O nosso entrevistado de hoje trabalha nas duas frentes com muita originalidade. Do baixo acústico para as câmeras, o cineasta João Marcelo Gomes conversou com o Blog do Som e compartilhou um pouco da(s) sua(s) história(s) com a gente. Mas dá pra fazer música e cinema ao mesmo tempo? É o que você saberá agora! Desliguem os celulares... Olhos e ouvidos abertos e... Luz... Câmera... Ação!

 

BS - Fale um pouco sobre você... Seus principais trabalhos... Pro pessoal que lê o blog e ainda não sabe quem você é…

 

JM - Rapaz, difícil tarefa essa para começar a conversa. Em primeiro lugar, posso dizer que eu sou uma pessoa que gosta muito de música, e desde cedo ela foi bem presente no meu dia a dia. Meus pais sempre ouviam muitos discos, de vários gêneros, especialmente música brasileira da década de 70 e jazz. Por alguns anos íamos aos domingos assistir a Orquestra Sinfônica do Paraná no Teatro Guaíra. Vejo que isso tudo ajudou muito a estabelecer referências importantes na minha audição.

Já mais crescido, ganhei um contrabaixo, montei uma banda de rock, e terminei fazendo faculdade de música (Produção Sonora - UFPR). Foi um período fundamental, onde conheci algumas pessoas muito importantes na minha vida, tomei contato com novos universos musicais, e passei a trabalhar com captação de áudio. Depois de formado, passei a trabalhar com vídeo. Inicialmente áudio para vídeo e cinema, o que me levou a querer estudar melhor a área. Me aproximei da área de Direção, como Assistente, e então passei a dirigir meus projetos. 

Há algum tempo venho realizando documentários e recentemente dirigi projetos com alguns músicos que admiro muito, como André Mehmari, Hermeto Pascoal, Rodrigo Lemos para citar alguns. (Alguns clips do Lemoskine dirigidos por João Marcelo Gomes aquiaqui e aqui).

 

 

BS - Vamos falar sobre o seu último trabalho, o documentário Contraponto. Do que se trata este doc? Por que você escolheu este nome para o filme?

 

JM - Me parece que o Contraponto tem a ver com isso tudo que eu mencionei. É um pouco da minha visão do que a música pode representar. O filme foi realizado ao longo de uma edição da Oficina de Música de Curitiba. Eu, quando estudante de música, frequentei a Oficina por vários anos. E sempre me fascinei com a junção de tanta gente, vinda de tantos lugares diferentes, e fazendo música de formas tão distintas. E tudo isso acontecendo “ao mesmo tempo, agora”. É um dos aspectos mais legais da Oficina. É muito plural. E muitas pessoas se inserem nessa pluralidade de uma forma muito bacana, se deixando levar pelo jazz, pelo samba, o erudito, enfim... sem grandes barreiras. 

No filme eu tentei mostrar um pouco disso. Filmei algumas aulas da Oficina por vários dias, e estruturei a montagem “contrapondo” formas distintas de se fazer música. A Música Erudita está representada pela aula de regência, o Jazz pelas aulas do Arismar do Espírito Santo, e a Improvisação Corporal pelo Barbatuques. Há ainda a Percepção Musical, que de alguma forma muito subjetiva serve de base para todas essas coisas. São lógicas bem distintas entre si, mas é tudo música, ou como diz o Hermeto, “tudo é som”.

 

BS - O filme se desenrola como um filme de arte. Essa abordagem mais artística para um documentário torna ele menos jornalístico. A tua idéia foi esta desde o começo ou a “concepção estética” precisa se adequar ao orçamento?

 

JM - O filme é sem dúvida bem sensorial. Procurei fazer com que a música falasse mais por si só do que eu por ela. Escolhi personagens centrais, que fossem capazes de conduzir as cenas, de dar um norte para o filme. São eles que apresentam as questões e apontam os caminhos, as soluções. E é justamente ao observar a relação de cada uma dessas pessoas com a música que fazem, que uma compreensão do filme me parece possível. Tratar o tema dessa forma sempre sempre foi a idéia, desde antes da filmagem.

 

BS - Você acha que o fato de você ser um músico influenciou muito na direção do doc? Alguém que não tenha estudado música formalmente conseguirá apreciar o filme com a mesma intensidade? O que você tem percebido da reação das pessoas que assistiram ao filme?

 

JM - Com certeza influenciou. E essa foi minha maior preocupação desde o início do trabalho. Nunca quis fazer um filme mastigado, pois acho que ficaria muito chato, e principalmente fora de propósito. Não se trata de cada um “defender” a música que faz, mas sim de cada um viver aquilo e revelar o sentido do que faz, de uma forma mais subjetiva. 

Por outro lado sempre tive medo do filme ser um tanto incompreensível. Tenho notado dificuldade em algumas pessoas, em especial quando elas são leigas, mas mesmo assim buscam compreender os aspectos musicais em questão. Não é o caso, até porque o filme não é nada didático. 

Como bem disse um amigo meu, totalmente leigo em música, a chave é direcionar a atenção às pessoas que estão ali, e os conflitos que experimentam ao fazer música. Dessa forma é possível entender o que se passa, mesmo que não se tenha ideia do que está acontecendo na mecânica musical. 

 

BS - Fale um pouco sobre o documentário "A Revolta".

 

JM - Esse filme foi muito especial, pois lidei com uma questão muito importante para minha família. É um documentário sobre a chamada “Revolta dos Posseiros”, ocorrida no Sudoeste do Paraná, na década de 50. Luta por terra, em especial pela madeira em uma região “sem lei”. O governo, de forma velada, esteve sempre ao lado dos opressores. Um dos fatos mais absurdos foi a soltura de presos do Presídio do Ahú, que foram levados ao sudoeste para atuarem como jagunços, e forçar os colonos a serem coniventes com o desmatamento dos pinheirais. 

Minha família, por parte de mãe morava por lá, e viveu tudo isso. Quando eu era pequeno, lembro de minha mãe escrevendo sua dissertação de mestrado (1957, A Revolta dos Posseiros) e meu pai escrevendo um livro de ficção (Os Dias do Demônio), ambos sobre esse tema. Cresci ouvindo essas histórias, bem filtradas, claro, pois não são histórias das mais apropriadas para crianças.

E esta é a única revolta agrária armada vitoriosa na história de nosso país.

 

 

 BS - Você tocou baixo acústico no show Cyrk do Trio Quintina e dirigiu o making-off. Fale um pouco como foi participar deste trabalho.

 

JM - O CYRK é sem sombra de dúvida um dos espetáculos mais interessantes feitos por aqui nos últimos anos. E tive o prazer de estar envolvido. A ideia surgiu em uma turnê do Trio Quintina pela Europa, se não me engano a primeira de algumas que eles já fizeram por lá. A viagem foi feita de uma forma meio mambembe, na pendura mesmo. Por lá encontraram o Yamba, artista circense que vivia situação parecida, vendendo o almoço para pagar a janta.  No meio disso tudo veio a ideia de um espetáculo musical com números de malabarismo, de um circo mambembe com uns números absurdos. Instrumentos que levitavam, o cabeça de balão (número original do Yamba), e um gorila contrabaixista enjaulado. Foi aí que a sorte me atingiu em cheio, e tive a chance de encarnar a “monga” nesse espetáculo. Além disso, também dirigi e editei o DVD, um dos trabalhos mais marcantes que fiz até hoje.

Obviamente, é preciso destacar o trabalho do Márcio Abreu, que fez a Direção Cênica do espetáculo, dando “lógica” a ideias inicialmente desconexas, e criando a atmosfera do CYRK, que é mágica. Foi uma sorte grande ter trabalhado com ele e a equipe da Companhia Brasileira de Teatro. A Nadja Naira na criação da Luz e o Fernando Marés na criação do Cenário. Basta ver o que eles tem realizado nos últimos anos para perceber que a coisa toda ali acontece em um nível criativo excepcional. 

Tive ainda o prazer de dirigir e editar o DVD do CYRK. Por isso tudo sou muito grato a esse espetáculo. Além do que, estou certo de que paguei todos os meus pecados ao tocar de terno e máscara de gorila em algo como 40 apresentações.

 

MP - A música é uma manifestação artística que dá uma resposta imediata do público, como é essa transição para uma outra forma de arte que não tem essa resposta?

 

JM -Tocar e Dirigir projetos audiovisuais possuem naturezas distintas,  e a meu ver, deliciosamente complementares. A música é capaz de proporcionar um prazer incrível, e uma conexão imediata entre quem a executa e o público. É uma sensação indescritível, e viciante, até pela natureza efêmera da performance. 

Já o trabalho como Diretor me põe a pensar, criar e planejar antes de executar algo que vai ser visto sabe-se lá por quem e onde. Esse distanciamento físico e temporal do público é provavelmente a questão mais difícil neste trabalho, que é  bem solitário em alguns momentos. Digo isso não como algo negativo, pois eu gosto muito desses momentos de reflexão e planejamento.

Acho que seria incapaz de escolher entre um ou outro. 

 

MP - Voltando ao Contraponto, qual o caminho do filme agora? (Festivais, amostra, etc…) Como funciona a distribuição de documentários no Brasil? Tem espaço, é muito concorrido, como é que é?

 

JM - O circuito de festivais é complexo, depende do perfil do filme se encaixar no perfil do festival, ou da curadoria do festival no ano em que o filme está circulando. Estamos enviando o Contraponto para alguns festivais, e vamos ver no que dá. Não é um projeto que eu imagine que se enquadre em uma grade de exibição televisiva. Com certeza, em breve, libero para que seja visto online, pois minha intenção é que o filme chegue no público, da forma mais descomplicada possível.

 

MP - Pra finalizar, quais são os teus próximos projetos?

 

JM - Estou finalizando dois trabalhos que dirigi. O primeiro deles é o Arlequim, que fiz com o Bernardo Bravo. É um trabalho composto por piano, voz e intervenções cênicas. Parti de personagens desenvolvidos pelo Bernardo e pela Karina Pereira, e criei um roteiro que se desenvolve em paralelo às músicas, narrando a história do Arlequim. Resultará em um filme musical curto, para internet. Logo lançaremos.

O segundo trabalho foi produzido pelo Hermeto, e teve suas músicas tocadas ao acordeom pelo João Pedro Teixeira. O instrumento foi levado ao extremo, explorado de todas as formas possíveis e imagináveis. Um trabalho super intrigante em sua essência, em que tive que ficar atento por todo o tempo ao pensamento dos dois para poder captar da melhor forma o que estava sendo criado a cada instante. Fica pronto ainda esse ano.

 

"Contraponto" - direção João Marcelo Gomes

 

 

"Vidas Deslocadas" - direção João Marcelo Gomes


"A Revolta" - direção de João Marcelo Gomes e Aly Muritiba 

 

 

 

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