Entrevista com Gabriel Schwartz

05.02.2016

12/01/2015

 

A difícil arte do Multi-Instrumentista.

 Foto by Rosano Mauro Jr.

 

Se tocar bem um instrumento já é difícil, imagine vários. E compor. E escrever os arranjos. E fazer a produção dos shows. E sabe-se lá mais o quê. Hoje o Blog do Som conversa com o incansável "Homem-Banda" Gabriel Schwartz, que faz tudo isso e muito mais. Devagar e sempre! (E tem gente que diz que músico não trabalha...)

 

 

BS - Quantos instrumentos você toca profissionalmente? Como é a sua rotina de estudos? Tem algum que você precisa se dedicar mais? 

 

GS - Frequentemente trabalho mais com os sopros e percussão/bateria, mas me arrisco também nas cordas com o violão, pois meu pai tinha um em casa e a gente (eu e meus dois irmãos) já arranhava desde criança seguindo cifras naquelas revistinhas que se comprava em bancas. Com 8 anos de idade cheguei a fazer aulas de violino, depois nunca mais toquei... mas me serviu como musicalização, é um bom treino para o ouvido! Depois veio a bateria com 14 anos, banda de rock, etc... e por fim a flauta aos 18 anos, que foi o instrumento que me levou à minha profissionalização, e depois aos outros sopros, sax alto, sax tenor, sax sopranino, clarinete e flautim. Nessa época foi quando formamos o Trio Quintina onde a ideia de tocar vários instrumentos e manter a formação de trio resultou nas características básicas do grupo e, sendo assim, comecei no pandeiro e outras percussões chegando à percuteria, além do desafio de cantar em solos e arranjos vocais, no início eu até tocava violão em algumas músicas! Ainda nessa época fiz minha primeira participação como músico de teatro, executando ao vivo junto com Liane Guariente e Andréa Bernardini a trilha sonora da peça “Paredes de vento” do Grupo Resistência, onde conheci Marcio Abreu. Vale citar aqui que essa trilha foi composta pelo nosso amigo e guitarrista Luis Otávio Almeida, que se tornaria nosso parceiro durante vários anos na Orquestra Maria Faceira. Depois de muitos anos voltei a trabalhar com o Marcio já na Cia. Brasileira de Teatro numa pequena peça chamada “Polifonias” na qual tive que tocar uma improvável gaita de boca! Até hoje ainda acho isso engraçado, mas o teatro permite e, ao mesmo tempo, exige que você se arrisque em instrumentos que não domina, como foi o caso de outra montagem mais recente da Cia Brasileira chamada “Oxigênio” que eu compus a trilha e acabei tocando guitarra com uma pegada muito roqueira, cheguei até a compor um Rap!!

("Rap dos Cogumelos")

Em outra montagem recente, esta da Ave Lola Espaço de Criação, eu toco a música composta por Jean-Jaques Lemêtre num piano desmontado, tangendo as cordas com as unhas como se fosse uma harpa. Na minha última composição para teatro, a peça “Atman” com texto de Patrícia Kamis e direção de Preto Galiotto gravei todos os instrumentos, inclusive o baixo elétrico. (Para ouvir clique aqui).

Outro instrumento inusitado é o “Homem-banda” que uso no show cênico “CYRK – o circo musical do Trio Quintina” que consiste em um bumbo e um chimbau presos nas costas e acionados com os passos, além de ter a flauta, o flautim e o sax sopranino pendurados à minha disposição! Outro recurso que utilizo é o Loop Station, onde posso gravar vários instrumentos sobrepostos, mas este é um trabalho que ainda pretendo desenvolver para usar num show solo. Tive uma experiência com meus amigos André Prodóssimo e Graciliano Zambonin que resultou neste vídeo (postado abaixo), mas por enquanto o projeto não teve sequência. 

Com toda essa gama de instrumentos não consigo manter uma rotina de estudos e me organizo para preparar o repertório da vez, cada semana é diferente da outra!

 

BS - Em quantos projetos você está participando atualmente? 

 

GB - Meus projetos fixos são o Trio Quintina e a Orquestra à Base de Sopro, que já resultam em vários repertórios diferentes por ano. A orquestra faz em média 4 repertórios por ano. Com o trio atualmente temos 4 espetáculos montados, o “CYRK”, “Samba Erudito” da obra de Paulo Vanzolini, o nosso show comemorativo de 15 anos com uma coletânea de composições ao longo da carreira e o projeto mais recente que é o show do DVD “Trio Quintina Orquestra – Música Brasileira Progressiva” com banda, naipe de sopros e cantores convidados. Fora isso, trabalho bastante com choro, tenho o grupo “Variedades Contemporâneas” que de vez em quando se reúne para algum projeto específico, assim como o grupo do Vina Lacerda “Pandeirada Brasileira” e o grupo musical da Letícia Sabatella “Caravana Tontería”. A peça “Tchekhov” segue em cartaz em temporadas pré-agendadas, assim como o show cênico “Noël” que reestreou no final de 2014 depois de vários anos que ficou parado. Também faço parte de um show infantil chamado “Supercondutores de Energia” produzido pela Parabolé de Nélio Spréa. Além disso frequentemente sou chamado para fazer direção musical de shows e cds como por exemplo: “Umuarama” de Marx Cruz, “Canção enquanto caminho” de Renata Melão e “As canções do meu tempo de criança” de Mariana Fagundes, sempre participando também na criação dos arranjos e como instrumentista.

 

BS - Você trabalha com grupos de música intrumental e grupos com cantores. Na sua visão, qual é a principal diferença na postura do músico nestes dois tipos de trabalho? 

 

GS - É notável que a música vocal tem maior aceitação com o público em geral, principalmente se você está disposto a tocar um repertório de músicas conhecidas. Eu acho que você pode fazer disso um aprendizado se usar sua criatividade para fazer arranjos, improvisar e colocar sua personalidade nas interpretações, além de conseguir mais trabalho, afinal não tá fácil pra ninguém!!

 

BS - Recentemente você viajou para a Europa levando arranjos que você fez para a Oabs. Explique um pouco o que é um "arranjo" e como foi essa experiência de tocar música brasileira com músicos estrangeiros.

 

GS - Sim, essa foi uma experiência fantástica. Tive sorte de encontrar músicos acostumados a tocar em "bigbands" de alto nível em Valência na Espanha através da minha amiga e cantora Thaïs Morell que vive lá. Desde o primeiro encontro, em dezembro de 2012, durante a leitura do arranjo de “Choro pro Zé” no início do ensaio pela manhã, pude perceber a relação de respeito, admiração e afinidade deste grupo de músicos espanhóis pela música brasileira. O resultado é que montamos uma “filial” chamada Orquestra à Base de Sopro Sedajazz e já temos nosso primeiro disco, “Brasiliana”, só de música brasileira e arranjos meus, o qual também fiz a regência e direção musical, e ainda com a participação vocal da Thaïs em várias faixas. Em julho de 2014 fui até lá novamente para fazer o show de lançamento dentro da programação do XVIII Festival de Jazz de Valência ao lado de grandes nomes do jazz internacional. Muito importante também é citar que este intercâmbio só foi possível porque os custos de viagem foram patrocinados pela Caixa Cultural através do escritório aqui de Curitiba.

 

BS - No Trio Quintina você acumula funções de instrumentista, compositor, arranjador, produtor... Isso foi acontecendo naturalmente ou é tudo dividido com os outros músicos? Fale um pouco sobre a trajetória do grupo e como é manter um grupo de MPB de maneira independente durante todo este tempo.

GS - Acumular funções é a pior parte! (risos) O trio surgiu oficialmente no início de 1998, ou seja, estamos completando 17 anos de atividade ininterrupta. Isso se deve em grande parte ao fato de que todos os três encontram no trio motivos para continuar, sejam eles de origem artística e de realização pessoal e profissional, bem como estabilidade no aspecto financeiro. O fato de termos um repertório de clássicos da MPB e choro como base da nossa formação nos proporciona uma gama abrangente de possibilidades de trabalho além do nosso trabalho autoral, que fazemos questão de nunca deixar de lado! O fato de estarmos inseridos num contexto de estilo como o choro e o samba também nos trouxe algumas oportunidades de viajar para o exterior como no evento “Goal to Brasil” representando a cidade de Curitiba em Londres em 2013 para divulgar a Copa do Mundo no Brasil em 2014, além da participação no Festival do Clube do Choro de Paris e da programação do Clube do Choro UK em Londres em 2014. Em fevereiro de 2015 voltaremos à Europa para participar da programação da Escola Portátil da Holanda em Rotterdam com um workshop e um concerto. Também desde 2014 firmamos uma parceria com o saxofonista brasileiro Marcio Schuster que reside em Munique na Alemanha, onde temos programados 4 concertos também em fevereiro de 2015. A época em que o trio surgiu, em meados de 1997/1998, foi justamente quando eu queria dar um passo para me profissionalizar na música, acho que por isso eu sempre busquei os caminhos para dar certo. Nem sempre tive o apoio dos meus companheiros em todos os aspectos, mas a gente foi encontrando maneiras de se manter juntos, acho realmente impossível que as coisas se dividam igualmente num grupo, alguém sempre vai acabar acumulando funções. 

Por outro lado isso também sempre foi uma iniciativa minha e levo comigo esse aprendizado para a vida, o que me permite estar preparado para o mercado e cria muitas oportunidades de trabalho para mim fora do trio.

 

BS - Você é um dos fundadores do Clube do Choro de Curitiba, explique um pouco o que é este projeto, quem são as pessoas envolvidas e o que o Clube já desenvolveu. 

Pode-se dizer que o choro foi a sua principal "escola"? Como você analisa a "cena"

curitibana do choro hoje em relação a quando você começou?

 

GS - Com certeza o choro foi minha principal escola, embora eu tenha passado pelo rock no início e depois pela música erudita, comecei a tocar choro no momento decisivo da minha carreira, junto com o início dos estudos na flauta e, consequentemente foi quando senti a necessidade de aprender as várias outras áreas da música: teoria musical, harmonia, arranjo, solfejo, improvisação, regência, produção e direção musical em estúdio e shows. O choro exige técnica no instrumento e conhecimento das estruturas tonais, além do desenvolvimento do ritmo, memória, interpretação, improvisação e o mais importante na música, aprender a se colocar em um grupo, cumprir sua função em cada momento, e tudo isso se aprende coletivamente, convivendo com os mais experientes nas rodas de choro.

O Clube do Choro de Curitiba teve seu início em 2003 por iniciativa do João Egashira, que reuniu um grupo de músicos interessados em compor choro, posso citar alguns que me lembro como Osiel Fonseca, Sérgio Justen, Julião Boêmio, Fabiano Silveira (o Tiziu), Luis Otávio Almeida, entre outros.  A proposta inicial foi que os músicos envolvidos tivessem o compromisso de compor pelo menos um choro por mês a fim de se realizar um festival mensal de choros inéditos, sendo aberta a participação de qualquer outro músico interessado também em participar dos festivais eventualmente. Os festivais aconteciam aos sábados no restaurante Beto-Batata e geraram ao final de três anos mais de 300 composições que participaram dos festivais revelando uma nova geração do choro curitibano. Depois paramos com os festivais mensais, mas seguimos promovendo eventos a cerca do dia nacional do choro, 23 de abril (instituído por Artur da Távola em homenagem ao aniversário de

 nascimento do Pixinguinha), quando comemorávamos a data com uma semana de shows e rodas de choro. Algumas vezes ao invés da semana, fizemos as maratonas de 24 horas de choro ininterruptas com a participação de todos os chorões da cidade se revezando para a música não parar! Em 2007 lançamos um Cd com o nome do Clube do Choro de Curitiba que foi uma coletânea de composições dos músicos mais atuantes no clube nos anos anteriores, eu e o João Egashira fizemos a direção e tivemos a participação também de Daniel Migliavacca, Julião Boêmio, Fabiano Silveira (o Tiziu), Cristina Loureiro, Sérgio Albach, André Prodóssimo e Denis Mariano. 

Também realizamos duas edições do “Festival Curitiba no Choro” em 2004 e 2010 que estão devidamente registradas em cd e que levaram o evento ao patamar de festival nacional, embora tenhamos recebido participantes até mesmo de outros países!! Hoje em dia o choro em Curitiba continua revelando talentos, renovando e ampliando cada vez mais a comunidade de músicos e apreciadores.

 

BS - Fale um pouco sobre o projeto "Variedades Contemporâneas". Foi iniciativa sua? Quem são os músicos que trabalharam neste disco? A proposta é uma linguagem mais moderna ao choro? De que maneira?

 GS - Convidei o meu amigo e pianista Davi Sartori para a gente montar um trabalho autoral com a vertente do choro, mas pensando em sair do convencional, começando pelo piano que já não é um instrumento muito utilizado no formato regional de choro. Sugeri também que a gente chamasse o Julião Boêmio pela sua personalidade incrível, tanto na vida quanto na música! Nossas referências iniciais foram os grupos do Radamés Gnattali e do Laércio de Freitas, ambos pianistas que tinham em seus grupo de choro a presença de baixo acústico e bateria, o que já conferia uma sonoridade mais moderna, então chamamos o Graciliano Zambonin para a bateria e o Jefferson Lescowich para o baixo. Eu tocaria flauta e sax e finalmente chegamos à conclusão que poderíamos ter um convidado para alternar melodias e criar contrapontos e chamamos Gabriel Grossi pela sua incrível capacidade de improvisação e pelo seu instrumento peculiar e pouco usado no choro, a gaita de boca, também porque poderia sugerir uma referência ao acordeon. Depois o trabalho foi cada um (eu, Davi e Julião) trazer suas composições para uma seleção que formasse um bom repertório, coeso e ao mesmo tempo variado em ritmos e andamentos. Para o cd ainda contamos com a participação do nosso mestre Laércio de Freitas que tocou piano e fez um belíssimo arranjo para quarteto de cordas em uma composição minha chamada “Redenção”. Para o lançamento o Gabriel Grossi não pode vir então tivemos a participação do clarinetista italiano Gabriele Mirabassi, o show acabou virando um DVD ao vivo que tem também a participação também do Laércio.

 

BS - Na OABS você além de instrumentista também é arranjador e regente assistente... Quais são os desafios de se manter um grupo deste tamanho de música instrumental? Qual a importância que a Oabs tem na sua trajetória como músico? Quais foram os principais shows que você fez com a Oabs e quais são os próximos trabalhos com ela?

 

GS - Um grupo como este só sobrevive com apoio do estado, ao contrário do que alguns gestores possam pensar. Uma orquestra é patrimônio da cidade e reflexo da cultura local e mesmo que não tenha um alcance tão popular quanto as bandas da moda, ela se justifica somente por existir e mudar a vida das muitas pessoas que passam por ela ou que presenciam uma só apresentação que seja.

Com certeza, assim como as rodas de choro, a OABS foi uma grande escola para mim. Ali que eu tive contato com um trabalho profissional como instrumentista, desenvolvendo a prática da leitura e a percepção para tocar em naipe. Posteriormente tive a oportunidade de iniciar carreira de arranjador e regente e, vale citar aqui a existência da Orquestra Maria Faceira nesse mesmo período, onde pudemos dividir grandes momentos e experiências.

Por fim cheguei a fazer a direção musical e a regência do DVD da OABS com o pianista André Mehmari em 2011, uma grande responsabilidade!

A OABS tem 6 trabalhos fonográficos lançados, CD Mestre Waltel, DVD “Orquestra à base de sopro & Arrigo Barnabé”, CD/DVD ao vivo “Orquestra à Base de Sopros de Curitiba & André Mehmari”, CD/DVD “Nossos Compositores”, CD “OABS & Léa Freire” e o CD “A testa in giù”com o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi. O mais recente concerto da orquestra tem como convidado o compositor e solista Egberto Gismonti.

 

BS - Fale um pouco sobre o Cyrk, qual é a história desse projeto, quem são os envolvidos...

 GS - O show Cyrk surgiu da necessidade do Trio Quintina trazer um pouco de movimento às suas apresentações. Em 2004, numa das viagens do trio à Europa, encontramos em Barcelona o Yamba Daher, um malabarista de Curitiba, e assim surgiu a ideia de fazer um espetáculo musical que tivesse o circo como temática principal. Convidamos também para esse show o baixista João Marcelo Gomes, que passa mais da metade do espetáculo usando uma máscara de gorila e toca seu baixo acústico dentro de uma jaula. A partir disso selecionamos algumas músicas clássicas da MPB que faziam alusão ao circo, bem como composições nossas que se encaixavam no tema, mas boa parte do repertório foi composta durante o processo dos ensaios devido à necessidade de termos temas específicos que representassem e sonorizassem números de circo ou pequenas cenas dentro do roteiro. A música está em primeiro plano e é o fio condutor do espetáculo colocando a performance na condição de estar atrelada e dependente da música para acontecer, acho que isso foi o grande trunfo! Tivemos a contribuição impagável do pessoal da Cia Brasileira de Teatro, Marcio Abreu na direção, Nadja Naira na iluminação e Fernando Marés no cenário, além de Cristine Conde no figurino. Este show foi lançado em DVD e está disponível em algumas lojas, assim como outros trabalhos do trio. No nosso site estão listados alguns pontos de venda.

O Cyrk também está disponível no youtube, (clique aqui).

Em Curitiba eu recomendo a Livraria Arte & Letra onde também estão à venda trabalhos dos outros grupos que eu citei acima.

 

BS - E pra finalizar, quais são os teus próximos projetos?

 

GS - Faz tempo que eu penso fazer um mestrado fora do país e criar um show solo, mas ainda não chegou a hora! Vou tocando a vida.

 

Blog do Trio Quintina

 

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Suingue Essência - "Bananeira" (G.Gil) em 13/8

Variedades Contemporâneas. - "Ao nosso amigo Esmê" (Laércio de Freitas). Part. esp. Laércio de Freitas e Gabriele Mirabassi

 

 

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