Entrevista com Glauco Sölter

04.02.2016

 

 

20/10/2014

"Eu nunca faço um trabalho que não tenha algo que me faça crescer."

Glauco Sölter

 

E hoje temos o privilégio de conversar com o contrabaixista Glauco Sölter. Um dos músicos mais atuantes e influentes da cena musical curitibana e um dos principais nomes do contrabaixo brasileiro. Instrumentista, compositor, arranjador, produtor, ele recentemente lançou "DOIS EM UM" (Coletânea e Novidade), um CD duplo que traz um apanhado de sua carreira como compositor com faixas dos discos: "Glauco Sölter", "Tocaia", "Sinfonética", Fala Baixo" e "Baxô", (Lançados entre 1996 e 2004). E de quebra um CD com material inédito onde ele explorou bastante o baixo acústico. Sempre bem humorado e inspirado, ele fala sobre o novo trabalho, o papel do baixista, a vida de músico e muito mais... Em suas próprias palavras: "Tocando a música e a vida..."

 

 

BS - O que te motivou a incluir uma coletânea junto ao cd de composições inéditas?

 

GS - Como nossas produções independentes são tiragens de mil ou duas mil cópias, isto se esgota em um ano mais ou menos. Depois você entra em contato com muita gente que não conhece teu trabalho anterior e provavelmente não terá esta chance. Por isso fiz uma coletânea, para que novas pessoas conhecessem trabalhos meus anteriores.

 

BS - Como foi a escolha a dos músicos que trabalharam neste cd? O estilo deles influenciou os arranjos? Digo isto porque o "Novidade" tem uma "pegada" mais acústica...

 

GS - Exatamente, formar uma sonoridade mais acústica e mais brasileira era minha intenção desde o início. Mas "deixei rolar'' nos ensaios e a sonoridade foi vindo naturalmente... E ainda estamos buscando! O mais importante para mim era manter uma coesão de proposta sonora neste CD, porque nos meus outros CDs, eu havia experimentado várias formações diferentes. Os músicos do CD são pessoas com quem trabalho em diferentes grupos e apostaram nesta proposta confiando no meu trabalho autoral, o que me deixou muito lisonjeado. Eu os admiro muito e cada um contribuiu sendo ele mesmo, trazendo seu mundo sonoro. Acho que eles sentiram que iriam se divertir. E foi muito sossegado em relação aos ensaios, que eram sempre aos sábados à tarde, sem horário definido.

 

MP -  Você tem bastante experiência em apresentações fora do Brasil, isso influenciou você como compositor de alguma forma?

 

GS - Com certeza quando você viaja, você encontra outras culturas e consegue identificar o que é da tua cultura. Ao mesmo tempo, você experiencia outras culturas que passam a influenciar teu trabalho... Tudo isso ajuda você a se posicionar dentro de um contexto cultural mais abrangente. Porém, um roqueiro pode ir pros EUA e voltar mais roqueiro ainda. No meu caso, eu trouxe uma cumplicidade maior com as raízes brasileiras, da minha visão do que é brasileiro, trazendo um cenário sonoro mais "verde-amarelo". Mas não foi cerebral ou premeditado. Eu observo isto depois do trabalho realizado.

 

BS - Atualmente você tem feito muitas gigs com o baixo acústico. Isto é uma evolução natural na carreira de um baixista profissional, uma consequência do mercado de trabalho ou expressão artística pessoal?

 

GS - Talvez uma mistura de tudo isto, porque o caminho normal do músico é pesquisar outros instrumentos, por prazer mesmo. E o baixo acústico, para quem  toca o elétrico, é muito próximo. Ao mesmo tempo o mercado pede para que os baixistas migrem para o acústico. E artisticamente falando, o som do acústico é uma das 8 maravilhas do universo! Som de madeira, com aquela caixa... É uma maravilha! Eu sou muito cara-de-pau e estou aprendendo muito, enquanto pratico ao vivo, com meus amigos músicos me ajudando. Também acho importante o artista se reciclar e poder oferecer ao público algo de novo de tempos em tempos.

 

BS - É verdade que você toca em 10 grupos??!! Quais são eles? Como administrar tantos projetos? Tem algum que é mais desafiador?

 

GS - Isto não é verdade! Eu toco em uns 15 grupos! (risos) Eu acompanho as cantoras Thayana Barbosa, Rogéria Holtz,  Naína e Janaína Fellini. Meu principal trabalho é o Raul de Souza Quinteto, mas toco muito com o Mano a Mano Trio, Daniel Migliavacca Quarteto, Murillo da Rós Trio e Duo Bandolaxo. Tenho o meu grupo, o Glauco Sölter Noneto e um quarteto chamado NaTocaia, com grandes companheiros. Participo do grupo Pandeirada Brasileira do Vina Lacerda e da Orquestra à Base de Sopro de Curitiba. Mais esporadicamente toco nos grupos de Helinho Santana, As Nimphas, Sandra Ávila, Cris El Tarran e Mário Conde. E às vezes ataco de show solo! (risos) Tudo é uma questão de organizar agendas e ter substitutos certos já preparados. Todos são desafiadores alguma maneira. Eu nunca faço um trabalho que não tenha algo que me faça crescer. Eu sempre estudei tocando ao vivo e me preparando em ensaios e estudos para depois tocar ao vivo. Isto sempre me motivou muito.

 

BS - Como você define o papel do baixo em um grupo?

 

GS -  O baixista tem que ser a pessoa mais consciente e concentrada do grupo. Ele é o alicerce de todos os outros, todos se guiarão por ele. Ele precisa ter um agudo senso de colocação e gostar de células rítmicas e de repetí-las por horas a fio, sem cochilar na forma. A frequência grave representa o fundamento da harmonia toda. Harmonia e ritmo juntos, como um bumbo melódico. Responsabilidade prazerosa! Como um cão de guarda! Quem é baixista sabe do que estou falando... (risos)

 

BS -  Muitos alunos de baixo têm como única referência baixista virtuoses norte-americanos. Você acha que a música instrumental brasileira deveria ter uma atenção maior nos meios de comunicação? Na sua opinião, como reverter este quadro?

 

GS - É natural, porque em geral, os meios de comunicação dão mais espaço para grupos americanos e os alunos acabam conhecendo primeiramente estes artistas. Acho que frente a isto, a música instrumental brasileira deve continuar fazendo o que faz: tocar para as pessoas e emocioná-las. Este talvez seja seu maior poder de transformação. Ela não deve se preocupar em reverter este quadro porque esta é uma tarefa que depende de muitos fatores distintos, que vão desde a educação de um povo e a valorização de sua cultura, até as condições dos músicos e da música no nosso país. Talvez quando a OMB for um órgão sério, nós possamos ter uma voz para mudar leis e conseguir uma transformação política. E a culpa é nossa mesmo, que não nos comprometemos... Mas acho que ainda vai muito chão até chegarmos a este ponto.

 

MP - Fale um pouco sobre a sua experiência como curador da Oficina de Música de Curitiba e da importância deste evento para a cidade...

 

GS - A experiêcia é muito gratificante porque procuramos oferecer à cidade uma valiosa oportunidade de crescimento, entretenimento, aprendizado, tanto para os alunos quanto para o público em geral. E também aos artistas locais que promovem intercâmbios muito frutíferos. É um evento que coloca Curitiba em destaque no meio musical de dentro e de fora do Brasil. Os resultados que observamos na música da cidade hoje é consequência direta deste evento.

 

BS - O que você diria para quem sonha em ser músico profissional mas tem medo da instabilidade financeira? É mais fácil ser um músico hoje do que quando você começou?

 

GS - Muitas vezes sou questionado sobre isto, já que opero o milagre de viver da música já há quase 30 anos, criando 2 filhos inclusive. Eu acho que a pessoa tem que sentir o resultado do seu tocar. Você não pode apostar a vida numa atividade que você sinta não ter alguma facilidade ou algo a oferecer. Então você pode deixar esta atividade como um hobby. Mas se você sente que pode realizar música, sente um chamado muito forte, aquilo te dá um enorme prazer e você consegue se expressar... Então tudo bem. Mas lembre que o talento musical, artístico é uma coisa. E a vocação para a vida circense de um artista, sem garantias, isso é outra coisa. Há de se ter muito amor pelo que se faz... Não acredito no discurso de que antes era melhor ou pior. Acho que as condições mudam e a há sempre vantagens e desvantagens.

 

BS - Pra finalizar, quais são os seus próximos projetos?

 

GS -  Um amigo me perguntou onde eu me imagino daqui a 15 anos. Eu respondi que estarei fazendo a mesma coisa: tocando a música e a vida. Estou em alguns projetos novos com alguns novos músicos, prefiro ainda não adiantar nada. Talvez meu maior maior projeto para o futuro seja me tornar um ser humano mais evoluído, um músico melhor, uma pessoa cada vez mais em paz interior e exterior. E tentar trazer isto para todos através da minha arte. Eu disse tentar... Já é o suficiente se for sincero. 

 

Para ouvir "Dois em Um"

 

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