Entrevista com Alex Figueiredo

04.02.2016

02/01/2015

 

 "Ritmo é tudo!" - Jaco Pastorius

 

E o nosso primeiro entrevistado de 2015 é o percussionista Alex Figueiredo.  Uma conversa sobre ritmos e principalmente sobre um estudo rítmico muito interessante originado na Índia: o Konokol.  Feliz ano novo pra todos e vamos trabalhar! (mas sem correr...) 

 

 

BS - Fale um pouco sobre os teus principais trabalhos como músico e professor.

 

AF - Marcelo, fiz trabalhos muito legais e que considero importante para o que eu acho que deve ser a formação de um músico, que é ter conhecimento e experiências em diferentes estilos. Comecei a tocar como "freelancer" na Sinfônica do Paraná em 1990. E permaneci assim até o ano de 2011, quando após tocar Romeu e Julieta, fiz uma reflexão e achei que era hora de parar. Já tinha tocado as principais obras do repertório clássico desafiador pra um percussionista: Mahler, Stravinsk, Korsakov, Ravel, Villa-Lobos , entre outros... E me senti com a obrigação de focar meu trabalho mais na questão pedagógica da percussão popular que hoje é meu principal trabalho. Na música popular, o que considero mais importante, foi o fato de ter participado de diversos grupos dos mais diversos estilos. Em meados de 99/2000 comecei o projeto El Merekumbé com diversos amigos e lá estive até o ano de 2007, tocando salsa duas ou três vezes por semana. Eu almoçava e jantava ouvindo salsa. Era o dia inteiro ouvindo até que em 2007, somando um certo cansaço à algumas divergências internas, resolvi parar. Acredite você mas só voltei a ouvir salsa em janeiro de 2012 quando estive em Los Angeles e um amigo que mora lá quis me levar num bar pra ouvir uma banda de lá. Paralelo a essa banda, toquei no Mafagafieira, que era uma banda que deixou saudades nos aficionados do estilo samba-rock meio lado B da década de 70 e 80, Maggy Poo que era uma banda disco anos 70, Turbo Funk, que  além de músicas próprias, fazia um tributo ao Jamiroquai que era sempre um aprendizado, e a minha banda atual que é o Xaxá do Xexé. Banda essa que toco desde 2005 praticamente todos os sábados desde àquele tempo. Também tiveram três anos tocando samba de raiz todas as quartas-feiras no Wonka Bar, o nome era Maytê Corrêa e grupo Batucajé. Em termos de gravações os mais importantes foram o CD da Sinfônica do PR, o da Maytê Corrêa, o dvd do Gustavo Proença e acabei de participar das gravações do CD do José da Cruz, um projeto de pesquisa da Marilia Giller e do Tiago Portela sobre a vida e obra desse compositor falecido e que foi um dos primeiros chorões que essa cidade (Curitiba) teve. Enfim teve bastante coisa boa e me considero um cara feliz por sempre ter podido viver de música tocando a música que considero boa, feita com qualidade por bons músicos e amigos, algo que considero importante, porque não se faz musica só com técnica, tem a convivência com diferentes pessoas e pensamentos, o que nem sempre é algo muito fácil, mas faz parte do aprendizado.

 

BS - Qual foi o seu primeiro contato com o Konokol?  Como

começou a se interessar sobre o assunto e onde aprendeu?

 

AF - Meu primeiro contato se deu em 1996 ao cursar um semestre na Berklee College of Music, onde tive a oportunidade de estudar após receber uma bolsa. Havia um "ensemble" com o percussionista e baterista Jammey Haddad, um grande músico que já há alguns anos faz parte da banda do Paul Simon e alguns grupos de world music. Foi um tapa na cara porque nunca tinha ouvido falar nisso, conhecia apenas um básico sobre tablas e que me mostrou que percussão nao era só pandeiro, atabaques, salsa, samba, etc. Eu diria que esse é o melhor aprendizado que você tem ao estudar fora. Conhecer novas linguagens hoje em dia é algo bem mais viável do que naquela época por conta do avanço da internet, algo que ainda  engatinhava até então.

 

BS - Qual a definição vc daria para o Konokol? 

 

AF - É uma tradição originária do sul da Índia que combina o uso de sílabas rítmicas e uma coregrafia de mãos. O konokol (ou konakkol) é a arte de recitar os solkattu (sol=sílaba, kattu=grupos). 

 

BS - Na sua opinião, como este conhecimento pode ser aplicado

por músicos de diferentes instrumentos? 

 

AF - Olha Marcelo... Pelo que eu já vi e conversei com pessoas que estudaram, cada um tem uma forma de abordá-los. Da minha parte, gosto de enfatizar a facilidade que esse método proporciona de trabalharmos pulsações diferentes das que estamos mais habituados no nosso dia a dia. Imagine você um aluno novo, com pouco tempo de estudo musical, solfejar essas silabas dentro de pulsos de 3, 5, 7 e  9 tempos por exemplo. Isso se dá em um curto tempo de prática, enquanto que na música tradicional, levaria meses ou quem sabe até anos para tal. Esse material também proporciona ao estudante uma incrível  segurança relativa à manutenção do tempo sem correr ou atrasar. Raramente tenho que parar a aula pelo fato de algum aluno estar correndo ou atrasando, porque é um estudo que trabalha o ritmo de forma realmente orgânica. Mas o que mais me chama atenção nas primeiras aulas, é o fato de proporcionar ao aluno iniciante, num curto espaço de tempo, poder exercitar a polirritmia de conseguir colocar 3 contra 4; 4 contra 5; 3 contra 7 e por aí vai... Certamente no ensino tradicional da nossa música ocidental, muitos deles talvez nem fossem conseguir algum dia poder fazer isso. Enfim, são várias formas de abordar, alguns professores gostam de enfatizar a possibilidade da criação de frases, o que no entanto, acho que deve ser uma coisa a ser passada depois dos conceitos rítmicos todos terem  sido explorados. Enfim, cada professor tem a sua visão.

 

BS - Fale sobre o curso que você deu na FAP sobre o Konokol, como você estruturou o curso e como foi a participação/receptividade dos alunos. 

 

AF - Bem na verdade o que aconteceu foi o seguinte: eu passei no teste seletivo para dar aula das matérias: rítmica e percussão. De inicio, quando vem a palavra rítmica, logo vem na cabeça das pessoas o material do Gramani, com quem eu também já fiz curso e avalizo como um grande educador. No entanto, eu queria sair um pouco da necessidade e dessa quase que obrigatoriedade que foi criada em cima do uso desse material em todos os cursos de rítmica. Queria buscar algo que realmente fosse completamente diferente de tudo que aquela moçada já tinha visto em sua vida estudantil. Nessa busca, me lembrei desses estudos que, humildemente,  no meu conceito, acho que são mais eficazes num prazo de um ano que é o que eu teria pra desenvolver isso com eles. Soma-se a isso, a situação que eu ainda estava trabalhando leitura rítmica com eles com outro material. Assim sendo, alternando esses dois materiais na aula, tornaria a aula menos monótona e tradicional, e consequentemente, mais atrativa para eles e para mim também. Por outro lado, é um material que eu havia estudado há muitos anos atrás e era uma boa razão pra eu mexer nele e estudá-lo novamente. E assim foi, tive que estudar todo dia ao longo de 2014 para me manter em forma e não pagar mico na frente dos alunos...(risos) Você como professor sabe o quanto nós estudamos para poder dar aula. E adoro isso. Me manter estudando para poder dar aulas, ainda mais do jeito que anda o cenário musical profissional, com certas "gigs" que  não nos obrigam a tal fato, e de certa forma, acabamos não nos cobrando também. A receptividade dos alunos foi a melhor possível. Fiquei muito feliz com a forma como eles se interessaram e compraram essa ideia junto comigo. Na verdade era difícil ao longo das aulas, às vezes, parar esse material para estudar a musica tradicional. Tive que negociar isso com eles, porque alguns, só queriam ficar nesse estudo.

 

BS - Quais são os elementos que compõem o estudo? "Adi tala", "tee-hai", etc... 

 

AF - Marcelo, por hora vou me ater nas talas ok? Explicar o tee-hai por aqui não sei se não iria confundir as pessoas. Tala é o nome que se dá a coreografia das mãos que serve para contar os tempos enquanto você faz os exercícios vocais. Existem inúmeras talas. A adi tala que você citou por exemplo se refere ao pulso de 8 tempos. Cada pulso tem suas respectivas talas. O interessante mesmo é quando as talas vão se tornando mais complexas,  ou seja, não mantendo a execução delas em todos os tempos. Por exemplo, no khanda tala

(5 tempos) você passar a usar uma tala onde bate palmas apenas no 1°, 3° e 4° tempos enquanto solfeja.

 

BS - Você planeja uma continuação deste curso para o ano que vem?

Como os interessados podem entrar em contato com você?

 

AF - Planejo sim, na verdade eu adoro dar esse curso. Assim que encontrar um espaço físico e um horário que eu e todas pessoas interessadas possam, fazer abrirei uma turma. Recentemente fiz uma oficina sobre isso que foi um sucesso com alguns bons músicos do cenário local presentes, o que aumenta mais a responsabilidade...(risos). Mas foi uma oficina de uma manhã inteira apenas. Quero fazer um curso que dure pelo menos um semestre. Assim que fechar meus horários no conservatório esse semestre pretendo propor por lá mesmo um curso de uns 3 ou 4 meses. Vamos ver se rola, senão buscarei outro espaço. Quem tiver algum interesse pode me procurar via meu email alefigs@gmail.com ou me procurar via FB mesmo onde podem me encontrar como Alex Figueiredo.

 

 

BS - Quais são os seus próximos projetos? 

 

AF - Como músico estou sempre aberto a novos projetos. Recentemente, comecei um trabalho autoral com um grupo montado pelo Denis Nunes (baixista) que faz uma mistura de rock com ritmos afro-brasileiros, com a percussão focada nos atabaques e agogôs. Paralelo a isso, sigo com a minha banda Xaxá do Xexé tocando nas noites curitibanas pro povo dançar. É uma outra coisa que curto muito, tocar pro povo dançar. Parto do principio do que uma vez ouvi o Hermeto falando: se você esta tocando uma musica para o povo dançar e todos estão dançando é porque você esta tocando bem, se não estiverem dançando, aí a coisa muda de figura, alguém está fazendo alguma coisa errada no grupo. Como o povo enche a pista toda vez que começamos a tocar uma música sinto que meu trabalho está sendo bem feito. Como professor, estou no meio de um curso de  pós graduação na Belas Artes, o que eu espero que me abra mais algumas portas para lecionar após à conclusão. Certo é que começo o ano em mais um semestre no CMPB, que é um lugar que, apesar de ser uma luta constante por  melhor estrutura no que se refere a compra de instrumentos de percussão e salas apropriadas, me realiza bastante como professor poder dar aulas lá.

Ficou faltando citar o John McLaughlin que foi o grande propulsor e divulgador desse conhecimento na música ocidental. Só pra concluir, foi através desses conceitos que ele criou em 1971 a Mahavishnu Orchestra , uma banda elétrica bastante respeitada por todo o mundo, devido à sua complexa fusão do jazz com a música indiana. Com a dissolução do grupo, ele criou junto com o percussionista indiano Zakir Hussain, o grupo Shakti e até hoje permanece incluindo elementos dessa linguagem em todas as suas composições. Seguem dois videos que usei numa aula que tive que dar na pós e pode ser uma síntese de tudo. No primeiro, são umas crianças de uma escola de música do sul da Índia que o próprio John apresenta e fala sobre. O segundo vídeo é de um batera austríaco que foi beber dessa fonte e faz uma apresentação no final de um festival de música lá. Repare que a música e o solo dele no começo é numa tala de 20 tempos. Mais lá pra frente em outro momento, ele passa para aquela tala que falei de 5 tempos. VALEU!!!!

 

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Vídeo feito pelo guitarrista Oliver Pellet sobre o Konokol. Trecho extraído do curso improvisação para todos os instrumentos que já foi apresentado nas Oficinas de Música de Curitiba de 2012 e de 2013

 

 

 

 

 

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